Preços subiram ainda mais após crise cambial. (Foto: Nestor Garcia).
Preços subiram ainda mais após crise cambial. (Foto: Nestor Garcia).

Após a disparada do dólar, que chegou a superar a marca dos 40 pesos, a moeda americana recuou durante três dias seguidos. A alta do dólar gerou problemas políticos e agravou a situação econômica.

Buenos Aires, 10 de setembro de 2018

Na sexta-feira, o dólar fechou levemente abaixo dos 38 pesos.

Mas o presidente Mauricio Macri reconheceu que “três dias de tranquilidade não significam que as coisas tenham sido resolvidas.”

Macri falou em "última crise", mas sequelas podem durar até 2020 (Foto: Delfo Rodriguez)
Macri falou em «última crise», mas sequelas podem durar até 2020 (Foto: Delfo Rodriguez)

Macri disse ainda que trabalha para que esta seja a “última crise.” Mas as sequelas da crise cambial, que levou o peso a ser desvalorizado em mais de 100% no período de um ano, já estão sendo registradas. E não apenas na área econômica.

Analistas econômicos e agências de classificação de risco medem os estragos da crise cambial que começou em abril e foi intensificada entre o fim de agosto e o início deste mês de setembro. A perspectiva de crescimento econômico que existia até abril mudou para a certeza da recessão neste ano de 2018.

O ministro Dante Sica acha que esta recessão é "diferente". (Foto: Mario Quinteros)
O ministro Dante Sica acha que esta recessão é «diferente». (Foto: Mario Quinteros)

O ministro da Produção, Dante Sica, disse que esta recessão argentina não é como as anteriores. “Acho que esta recessão será mais curta que as outras. E ao mesmo tempo em que o consumo interno sofre um ajuste agora, as exportações, por outro lado, começam a se recuperar”, disse Dante.

O economista Gabriel Torres, da agencia de classificação de risco Moody’s, disse que a recessão argentina poderia chegar até 2020. “O governo de Mauricio Macri tomou a decisão de consolidar a área fiscal, o que é positivo para o crédito, mas isto tem um custo econômico e político.” Após a escalada do dólar e o pedido de mudanças no acordo assinado há apenas três meses com o Fundo Monetário Internacional (FMI), o governo Macri anunciou medidas para reduzir os gastos e chegar ao déficit zero.

Sete consultorias econômicas da Argentina preveem retração neste ano e no próximo. Eco Go, ACM, Ferreres, Fundación Capital, Econométrica, Broda e REM estimam queda na economia de pelo menos 2% neste ano e crescimento zero ou queda de até 3% em 2019.

Segundo publicou o Clarín, no sábado (8), o governo Macri admite, nos bastidores, que a economia cairá 2,4% neste ano, a inflação chegaria aos 42%, a recessão marcaria também o ano de 2019 e o aumento de preços seria de 25% no ano que vem.

Alguns economistas, como Fausto Spotorno, da consultoria Ferreres e Associados, de Buenos Aires, estimam que a inflação de setembro ficaria em cerca de 4,5%. Para ele e para o economista Lorenzo Sigaut Gravina, da consultoria Ecolatina, criada pelo ex-ministro Roberto Lavagna, as remarcações de preços foram intensificadas a partir da desvalorização do peso que já passa dos 35% neste mês de agosto.

A esperança do governo é que no ano que vem surja uma nova safra recorde, aumentando a quantidade de dólares que entra no país.

Os produtores rurais também afirmam que, após a seca histórica que arrasou campos e ajudou a destrocar os números da economia de 2018, a economia argentina deve começar a melhorar em 2019.

Mas isto não significaria crescimento econômico.

Na semana passada, um menino de 13 anos morreu na na província do Chaco, durante um saque a um supermercado que teria sido convocado por meio das redes sociais.

A informação nas redes não era sobre um saque, mas sobre a entrega de comida. Na confusão, entre correrias e balas, o menino foi atingido por um tiro, segundo a polícia local.

A tragédia contribuiu para alimentar temores do passado já vivido pela Argentina, num momento em que a pobreza também cresce como resultado da inflação.

Mas a crise cambial e econômica gerou esperanças no opositor peronismo.

O movimento político tem tentado demonstrar que está vivo.

O peronismo foi derrotado por Macri na eleição de 2015, quando o candidato de Cristina Kirchner, Daniel Scioli, perdeu por diferença apertada para o atual presidente.

Nos últimos dias, os peronistas passaram a realizar reuniões mais intensas e a analisar a situação política e econômica, quando Macri perde apoio popular e sua principal adversária política, a ex-presidente Cristina Kirchner sofre o desgaste com os escândalos dos cadernos do motorista.

Nos cadernos, o motorista Oscar Centeno anotou supostas entregas de bolsas de dinheiro que eram feitas em garagens de grandes empresas e levadas para destinos como o apartamento dos Kirchner no bairro da Recoleta, em Buenos Aires.

Macri convocou os governadores, incluindo os peronistas, para uma reunião nesta semana. Mas a queixa dos governadores e dos peronistas foi confirmada nesta frase do governador de Tucumán e ex-ministro da Saúde do Kirchnerismo, Juan Manzur: “O presidente diz que está angustiado e que estamos em uma situação de emergência nacional. Mas por que não nos chamou antes?” Manzur disse que o peronismo quer que Macri termine seu mandato sem grandes solavancos, que o peronismo não quer cargos e não quer “cogovernar” com Macri.

A crise cambial afetou a economia, o bolso dos argentinos, aumentou os temores de turbulência social, evidenciou que a divida argentina é preocupante, levou o pais a pedir nova redação do acordo com o FMI e também antecipou a discussão sobre a campanha eleitoral de 2019.

Marcia Carmo
Marcia Carmo é jornalista carioca e mora em Buenos Aires. Trabalhou nas principais redações do Rio e de Brasília. Escreve para a BBCBrasil, cobrindo países da América do Sul, e é a editora do site Clarín em Português.

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